quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Saudades de Clarice Lispector


Este é um ótimo momento para voltar a atualizar meu blog. Tá, eu sei que já disse isso há alguns meses. Vários acontecimentos já passaram, já foi o Dia do Músico, Dia da Cultura, tudo que eu adoro, e eu não escrevi sobre. Realmente, ter um blog exige disciplina. Tempo para uma postagem sempre é possível arrumar, mas a preguiça não deixou. O fato é que preciso praticar a escrita, e pretendia voltar com tudo em 2010. Mas pq deixar para ano que vem?

Hoje é dia 23 de dezembro, aqui em Governador Celso Ramos (SC) são 23h54. Já é quase véspera de Natal, e eu estou em casa sem NADA para fazer, presa, portanto, não há melhor oportunidade para retornar ao Sem Editoria. Enquanto fico remoendo minha raiva por estar sozinha e não ter ido para lugar algum com meus amigos, encontrei um email perfeito para este post e para expressar o que senti neste dia.

Dentre tantos emails não lidos do gmail, resolvi abrir um com o título "Clarice Lispector". Pelo assunto, se tratando de uma grande escritora, o email devia ser interessante. Abri ao invés de excluí-lo. Foi enviado para mim no dia 07 de novembro e só hoje tomei vergonha na cara para ler, frente à monotonia da minha noite, e não à correria rotineira.

O poema chama "Sinto Saudades". Nada poderia me tocar mais neste momento. Pensei muito nisso hoje a tarde, comentei algo com um amigo. Todo mundo sente saudades de alguma coisa, de algo que aconteceu há muitooooooo tempo, de algo recente, ou de algo que ainda está acontecendo, mas que já deixa sua poderosa marca. Incrível como o poema consegue traduzir cada saudade reprimida, cada saudade esquecida...

Quem não sente saudades quando vê fotografias? Elas são tiradas para registrar os momentos, e quando nos deparamos com as imagens, é como se voltássemos para o passado. Os momentos podem ter sido maravilhosos, e mesmo assim as lágrimas teimam em cair do rosto, pois justamente por terem sido especiais é que sentimos saudades.

Quem não sente saudades quando sente cheiros ou escuta uma voz? Eu, particularmente, tenho olfato muito aguçado para isso. Qualquer essência que tenha marcado época em minha vida, como um shampoo, o perfume de alguém especial, traz à tona diversas lembranças. Se percebo o cheiro de um shampoo que usei em determinada época, não é do banho que irei lembrar, mas sim de tudo que ocorreu quando eu usava aquele shampoo, dos amigos que eu via todo dia, dos locais que eu frenquentava e de todas as sensações dos dias que eu vivia. É normal isso? Não sei, mas comigo acontece!

Saudades da infância...acho que essas são as mais presentes para a maioria das pessoas. Essa é a época em que éramos felizes e não sabíamos e ainda reclamávamos de tudo. Recuperar aqueles momentos nunca será possível, por isso, é preciso vivê-los intensamente, para trazer só as coisas boas para a vida.

"Saudades do presente que não aproveitei pensando no passado e apostando no futuro". Putz! Essa é realmente para matar! Quem nunca viveu e não vive assim mesmo sabendo que não é correto, que atire a primeira pedra! Sempre achamos que o hoje vai melhorar no amanhã, sempre criamos expectativas, choramos as lembranças boas ou ruins e acabamos deixando o presente passar, sem dar muita importância a ele. Mas esquecemos que o presente já foi o futuro esperado um dia, e amanhã será o passado lembrado.

"Saudades de quem me deixou e de quem eu deixei". Esse foi o grande tema na minha mente desocupada de hoje. Fiquei pensando em todos os amigos que preciso rever, todos que já foram tão fundamentais em minha vida, e que hoje longe, continuam sendo saudosos amigos, lembrei da confusão que minha mente faz em já não saber mais da onde conheço tal pessoa e precisar parar pelo menos por dois segundos para fazer a associação: amigos de Bagé, amigos de Floripa, amigos de Cuiabá ou outros...

Mais interessante foi descobrir nesses dias de "férias" em Santa Catarina, que já sinto saudades de algumas coisas e pessoas que deixei em Cuiabá. Isso é incrível. Sete meses em uma cidade que não curto muito, que fiz poucos amigos, mas que já me deixa marcas. Deveria era estar mais feliz ainda por estar de volta à minha última morada, perto da maioria dos meus amigos, e ainda pensando em todos que estão espalhados pelo Rio Grande do Sul e outras cidades. Preciso admitir: estou com saudades! E acho que tudo é cíclico, rotatório, ou ainda como diria Humberto Gessinger:

"Agora que a terra é redonda
E o centro do universo é outro lugar
É hora de rever os planos
O mundo não é plano
Não para de girar
Agora que o tempo é relativo
Não há tempo perdido
Não há tempo a perder
Num piscar de olhos
Tudo se transforma
Tá vendo? Já passou!
Mas ao mesmo tempo
Fica o sentimento
De um mundo sempre igual"

(Além da Máscara - Pouca Vogal)

As músicas dele sempre traduziram bem melhor do que poemas tudo que eu sinto. Elas me tocam muito mais pois além de poesia e realismo, possuem melodia. Perfeita!

Mas voltando à saudade proposta pela Clarice Lispector

"Saudades das coisas que nem sei se existiram". Essa frase é uma das mais certeiras pra mim. Tomando como base uma relação que vivi, que marcou minha vida de forma muito intensa, e que não consigo definir se existiu. Para mim sim, mas tudo ilusório, jamais foi real. Como se explica a saudade de alguém que nunca se tocou, nunca se sentiu, nunca esteve aqui para deixar saudades? Pois é...só algumas pessoas conseguiriam entender. Essa saudade me acompanha e acompanhará sempre tanto quanto a saudade dos amigos, da infância, do cachorro que me amou fielmente, vai estar sempre em mim. Saudades dele, daquele ser tão além imaginação, que ficou tão além da realidade, aquele que sempre vai existir em mim! "Encontrar não sei o que, não sei onde, para resgatar algo que nem sei o que é e nem onde perdi".

Não poderia ser melhor para finalizar esse post...

A conclusão disso tudo nem é preciso falar, todos já sabem, e cada um carrega o seu fardo de saudade. Cabe a cada um aqui interpretar como queira e pensar no que quiser, afinal, cada um tem sua história e cada um sabe o que traz dentro de si. Da minha parte, apenas um desabafo, usando como guia as palavras de Clarice Lispector. Se aliviou o que estou sentindo, ainda não saberia dizer, acho que gostaria mesmo que alguém lesse, de preferência alguém de que eu sinto saudades!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Encerramento da MITI

Em circuito desde o dia 02 de outubro, a 3ª Mostra Internacional de Teatro Infantil agitou o ânimo cultural de Cuiabá. Durante o período da MITI, foram apresentados diversos espetáculos, em vários pontos da cidade, e a entrada era a doação de um brinquedo em bom estado. Além dos grupos que vieram de outros estados do Brasil e até mesmo de outros países, a MITI ofereceu oficinas de desenvolvimento aos interessados.
Tive o prazer de prestigiar o encerramento da Mostra no último sábado, 24. A companhia em destaque era do Chile, LiberArte, brilhantemente comandada por Sergio Liberona Diaz e seu filho, Sergio Liberona Mena. O espetáculo de pantomina (teatro gestual que faz menor uso de falas possível) e bonecos ocorreu às 10h na Praça Alencastro e às 17h na Praça Oito de Abril, em frente ao Choppão.

O calor típico da capital mato grossense não espantou a criançada, os pais e curiosos que passavam pela praça. Os alunos do curso de Produção Teatral, assim como eu, foram ao encerramento no final da tarde. Lá, pudemos nos deliciar com o bom humor e talento dos hermanos chilenos. Risadas e encantos não faltaram.

Na primeira parte, cinco rotinas da pantomina clássica contaram com a participação da platéia. Após, vieram as interpretações com marionetes e muppets. Sapinhos, Bin Laden, velhinhos e para encerrar um esperto trapezista, que move olhos e boca. O condutor do espetáculo era muito carismático e mesmo com muita roupa, com o rosto pintado e suando nos quase 40 graus, não perdeu o ritmo, e não deixou os visitantes desanimarem.
A apresentação "Histórias para Imaginar" encerrou a MITI como ela merecia. Admiração e emoção pelo trabalho familiar ficaram evidentes na hora dos aplausos. Superparabéns!!!

sábado, 24 de outubro de 2009

3º Rally da Amizade

Como proposto por mim à época de criação do blog, o objetivo era atualizá-lo uma vez ao dia. Os dias passaram, os assuntos fluiram, mas não ganharam o devido espaço. Volto, na tentativa de cumprir o que eu mesma determinei. O tema de "reabertura" do Sem Editoria será o evento esportivo ocorrido semana passada, 17.10, em Cuiabá, e que movimentou pessoas de várias gerações.


Tive o prazer de assessorar e participar do 3º Rally da Amizade, rally de regularidade promovido pela Tauro Motors, concessionária da Mitsubishi, que reuniu em torno de 250 participantes em duas categorias, sendo seis carros na Master (para pilotos com experiência) e 50 na Expedition (pilotos sem experiência). O evento foi um sucesso, uma grande festa, contou com um número positivo de competidores e se consagrou como uma competição de família.

Relato a seguir a sensação de enfrentar pela primeira vez uma prova off-road. Foram aproximadamente cinco horas de trilha. Espero que venham outras!

"Como zequinha literalmente de primeira viagem, acompanhei o casal do carro 41, Tony Vitor Santos e Viviane Alves. Ambos também eram novatos em esportes de fora da estrada. Logo na saída do Cenarium Rural, às 8h, a trilha do Rally da Amizade foi tranquila. Foram aproximadamente 8 km de asfalto na saída de Cuiabá, um local já conhecido, portanto, sem dificuldades.

Após os quilômetros iniciais, começaram os erros de caminho e as estradas de chão. Nesse primeiro momento, perdemos aproximadamente cinco minutos até encontrarmos a entrada correta. Tony se garantia na pilotagem enquanto Viviane tentava entender a planilha de navegação. O conhecimento técnico deles e meu era restrito, mas a navegadora estava empenhada em ajudar o namorado e não se distraia do guia, e assim, o conteúdo se tornou mais decifrável a cada quilômetro.

Os buracos e a poeira foram as principais barreiras desse início. Trechos estreitos de terra e campos prenunciavam o que viria. Alguns carros conseguiam ultrapassar e outros se perdiam. Notei muita insegurança por parte de vários competidores. Ao verem um carro indo em determinada direção, o seguiam e depois tinham que retornar, pois todos estavam errados.

Aproximadamente 15 minutos após a saída, três carros entraram em uma chácara. Sem saída, fizeram o retorno. Embora a planilha fosse clara, estava difícil acompanhá-la. Essas dúvidas faziam os competidores perderem tempo.Um pequeno lagarto que cruzou a estrada deu um toque especial às belas paisagens formadas pelos campos que se seguiram. A partir daí os buracos se fizeram constantes. Muitos trechos com pedras e diversas pontes também foram os obstáculos. A velocidade média mantida por Tony era de 54 km.

A poeira foi a grande inimiga a ser vencida. Em determidos locais, devido ao período seco e calor que fazia, a visibilidade era praticamente nula, o que resultou na desaceleração dos carros.Um boi e alguns riachos também se misturavam ao visual. Um destaque interessante da competição foi a passagem por vilas e sítios. Os moradores acenavam e se divertiam com o rally, como frequentemente acontece em provas desse tipo. Tantos carros passando em um sábado que deveria ser pacato fez a alegria de todos.

Após 1h30 de prova, um trecho muito complicado teve de ser superado. Uma subida sinuosa de cascalho fez chacoalhar todos os veículos. A sensação de que íamos virar foi rápida, felizmente. E então veio a maior recompensa por todo esforço. Os paredões e serras da sequência formavam o cenário mais incrível que já vi. Sem palavras para explicar esse espaço verde que não pode ser visto por quem fica bitolado nas grandes cidades. O acesso é difícil, mas vale um novo passeio, apenas para apreciar. Para mim, esse foi o ápice do rally. A empolgação de nós três foi tão grande, que paramos para tirar fotos e os carros que vinham atrás começaram a buzinar, pedindo passagem.

Logo após todo deslumbre da natureza, entramos na rodovia e fizemos a primeira parada, no Vale das Águas. Ao voltarmos para a estrada, a trilha foi mais tranquila, mas só de início. As descidas tinham muitos buracos, pedras e poeira, e exigiam muita atenção de piloto e navegador. Novamente alguns pilotos se perderam, entravam em locais errados e eram seguidos, até encontrarem o caminho de volta. Tony e Viviane vinham concentrados no trajeto e na planilha e pouco puderam admirar da natureza, que ainda marcava presença com toda sua plenitude.

No segundo neutro o calor estava escaldante. Após essa parada a maioria da trilha era de estradas retas, beirando fazendas, e o que dominou foi a poeira dos competidores da frente.Tenho certeza que assim como eu, todos que esperavam belo um visual nos 190 km de trilha tiveram as expectativas superadas. Como prometido pela direção técnica do rally, a trilha foi um grande diferencial. Para Tony a competição foi uma ótima oportunidade para verificar o desempenho da sua Triton. Viviane revelou o desejo de aprender mais sobre a técnica da navegação e competir em outros rallys. E eu compartilho todas as sensações experimentadas”.

domingo, 20 de setembro de 2009

Um gaúcho é só saudade longe das coisas do pago

"Eu sou campeiro e conheço esse chão
De tanto andar encontrei meu rincão
Cavalo bom no potreiro, churrasco e um bom chimarrão
São valores que um gaúcho guarda no seu coração"
**********
"Patrão Velho, muito obrigada
Por esse céu azul
Por essa terra tão linda
Pelo Rio Grande do Sul"
**********
"Eu quero andar nas coxilhas sentindo as flechilhas das ervas do chão
Ter os pés roseteado de campo ficar mais trigueiro como o sol de verão
Fazer versos cantando as belezas dessa natureza sem par
E mostrar para quem quiser ver um lugar pra viver sem chorar
É o meu Rio Grande do Sul céu, sol, sul terra e cor
Onde tudo que se planta cresce o que mais floresce é o amor"

Sentimento de liberdade e patriotismo

Como a aurora precursora
Do Farol da divindade
Foi o vinte de setembro
O precursor da liberdade

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda a terra

Mas não basta p’ra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo


Este é o hino Rio-Grandense (Letra: Francisco Pinto da Fontoura; Música: Joaquim José de Mendanha), sempre entoado com muito louvor pelo povo gaúcho. Hoje, 20 de setembro, ele foi cantado com muito mais amor em todas as cidades do Rio Grande do Sul e provavelmente também pelos gaúchos espalhados pelo mapa do Brasil.

O mês de setembro sempre foi muito importante para os tradicionalistas gaúchos e o dia 20 representa a data máxima para o Estado e para o orgulho do povo. Hoje encerra-se a Semana Farroupilha, iniciada no dia 13 de setembro em todas as localidades do Rio Grande, desde o menor distrito até a Capital.

Esse momento de festa ocorre em todos os recantos como forma de relembrar a Revolução Farroupilha iniciada em 1835 e que durou 10 anos pelas paragens do nosso Estado, atingindo inclusive a fronteira com Santa Catarina. A minissérie da Globo, A Casa das Sete Mulheres, retratou parte dessa revolução. Quem assistiu deve lembrar do que se trata e entender um pouco a que estou me referindo.

A Revolução Farroupilha foi um marco da história e formação política do Estado. Por isso, a Assembleia Legislativa definiu o dia 20 de setembro como feriado. Como sempre saudosista e ligada aos eventos desse cunho, não posso deixar de lembrar do meu Estado e de todas as Semanas Farroupilha que frequentei durante os 17 anos que morei em Bagé.
As festividades começaram no último domingo com a chegada da Chama Crioula à cada município. Milhares de cavaleiros se deslocam até Porto Alegre para buscar uma centelha dessa chama que simboliza a Revolução. Dias, semanas em comitiva na estrada, a cavalo. Alguns, dependendo da distância, cavalgam bem mais que os outros. Esse grupo responsável por buscar a chama, retorna no dia 13 de setembro. Em cada cidade, em local pré-definido, geralmente uma praça histórica, milhares de pessoas já aguardam pela sua chegada.

Às 18h em ponto iniciam-se as comemorações, com a entoação do Hino Nacional e do Hino Rio-Grandense. Após, um representante de cada CTG da cidade colhe uma parte dessa chama e leva para cultuar no seu Centro de Tradições. A chama principal fica acesa na praça até o dia 20. São montados acampamentos de cada CTG que se revezam para não deixar a chama apagar.

Os sete dias são marcados por muita festa, comemoração, música tradiconalista, apresentação de invernadas, rodeios, churrasco em fogo de chão, chimarrão, poesia, entre outras festividades. Enquantos uns ficam no CTG, outros ficam nos acampamentos, outros aparecem a noite para prestigiar os shows, e por aí vai. É uma reunião do povo gaúcho para preservar o legado deixado por nossos antepassados. O momento é de reverenciar.

Tudo isso culmina com o desfile do dia 20. Na ocasião, os diversos grupos tradicionalistas, CTGs ou piquetes vão às ruas, devidamente pilchados, mostrando a imponência de seus cavalos, charretes e prendas. A organização fica por conta do Movimento Tradicionalista Gaúcho, órgão maior de fiscalização de CTGs, que também avalia a beleza, organização e número de participantes de cada Centro.

As pessoas que não participam se reunem para assistir ao desfile na avenida principal da cidade. Palco de autoridades governamentais também é montado. Envolvem-se nessas festividades crianças (algumas com menos de um ano de idade) até idosos, acostumados com a vida do campo. A Semana Farroupilha é a demonstração de igualdade, consciência viva e respeito à história!

Em Bagé, os tradicionalistas se reunem todo ano na Praça das Carretas, e desfilam pela Avenida Sete de Setembro. Não há como não sentir saudades desses momentos. A essa hora ainda devem estar nos acampamentos da Praça, curtindo os últimos shows e andando a cavalo no contorno. Amanhã é segunda-feira. Tudo recomeça, tudo volta ao normal, mas o sentimento




HISTÓRIA - Por Emília Fernandes

A Revolução Farroupilha, iniciada em 20 de setembro de 1835, e que durou cerca de 10 anos, envolveu em sucessivos e espetaculares combates, segundo os historiadores, cerca de 20 mil homens e mulheres em luta, resultando na morte heróica de aproximadamente 3.500 pessoas, em sua maioria revolucionários.

Unindo e mobilizando os farrapos, sob a liderança de homens e mulheres do porte de Bento Goançalves, Giuseppe Garibaldi, David Canabarro, Antônio da Silva Neto, Domingos Crescêncio e Anita Garibaldi, estava o sentimento de rebeldia contra a centralização do Poder Federal, que se manifestava, de forma especial, na espoliação econômica da região.

Entre as principais causas do levante, estavam a penalização dos produtos agropecuários, especialmente o charque, com altos impostos e, também, a expropriação e desvio dos recursos acumulados no Estado, até mesmo para pagar dívidas federais junto à Inglaterra.

Mas, além disso, a Revolução Farroupilha transformou-se em um momento de construção e afirmação dos princípios sociais, políticos, econômicos, culturais, e, talvez, principalmente ideológicos, que orientam a sociedade gaúcha até hoje.

Apesar da guerra, do ataque constante do poder imperial, os rebeldes farrapos mantiveram a atividade econômica, desenvolveram as estruturas de poder, tanto civil quanto militar, e introduziram revolucionárias práticas democráticas.

Em 1837 e 1838, libertaram os escravos, que haviam participado da revolução; reduziram os impostos sobre exportação e restabeleceram o imposto sobre importação de gado; criaram uma fábrica de arreios e outra de curtir couros e promoveram o recenseamento da população.

Ainda, dentre as medidas mais importantes, institui-se a Assembléia Constituinte e o sistema eleitoral baseado no sufrágio universal, com voto obrigatório e apuração perante o povo reunido. O processo revolucionário, em sua radicalidade, também foi determinante para aprofundar a definição do perfil da mulher gaúcha, que, no rigor da guerra, destacou-se pela determinação, iniciativa, objetividade, ousadia e coragem.

Além daquelas que participaram diretamente da revolução, milhares de mulheres, na ausência dos homens, deslocados para a guerra, passaram a responder integralmente pelas atividades produtivas, pelas questões sociais, pela administração das propriedades e pela educação da família, bem como, todas as demais responsabilidades.

A Revolução Farroupilha não teria sucesso sem a participação também heróica, dessas milhares de mulheres anônimas. Aliás, arrisco dizer que, considerando o fato do Rio Grande ter vivido praticamente 100 anos em guerras fronteiriças constantes, a história do Estado, e mesmo do Brasil, seria diferente, não fosse a atuação da mulher.

A Revolução Farroupilha, portanto, deixou muitos ensinamentos, dentre os quais, certamente, destacam-se o sentimento de soberania em relação ao poder central, o profundo espírito de integração da sociedade com o poder público e um grande senso de patriotismo.

Tal reconhecimento ensejou ao povo sulino, sensorialmente, o sentimento de firmeza de caráter e de ação dos seus ancestrais, sensibilizando-o como um seu predestinado continuado no tempo e no espaço.

sábado, 19 de setembro de 2009

Ela lava, ele enxuga


O Sesc Arsenal, localizado no bairro Porto em Cuiabá, tem sido palco para diversas atrações de cunho cultural. A integração entre arte e sociedade fica estampada logo na entrada. Um belo jardim, inúmeras salas para diferentes fins e mesas dispostas no vão central dão ao local um ar de magia e socialização.

Ao chegar lá na sexta-feira, 18, já pude notar o clima envolvente e a preferência dos cuiabanos pelo espaço para sair, relaxar e jantar com a família e amigos. O local virou ponto de encontro por proporcionar boa música, bom atendimento e espetáculos gratuitos em ambiente agradável ao ar livre.

Nessa noite, a Cia. Thereza João apresentava na sala de Teatro a peça Ela lava, ele enxuga. Como admiradora e amiga fui prestigiar o trabalho dos talentosos João Manuel e Thereza Helena. Baseado em contos e crônicas de Fernando Sabino, o espetáculo contou ainda com a presença do ator Frank Busatto.

As ações se passavam em uma cozinha e arrancaram muitos risos da platéia. Além da raiz cômica, os textos são reflexos do nosso cotidiano ou de situações pelas quais todo mundo já passou um dia. O ambiente doméstico foi escolhido como cenário por ser um local de convívio entre esposa/ marido, pais/ filhos.

O fio condutor de todos os contos que se sucediam era o olhar masculino a cerca de características femininas. A capacidade da mulher de enfeitiçar, persuadir e olhar ironicamente para os homens foram interpretados ora com ações, ora com narrações.

O cenário foi muito bem planejado com poucos objetos que cumpriam perfeitamente seu papel. O destaque fica por conta da trilha sonora alternativa. Todos os sons foram produzidos através dos próprios utensílios da cozinha, como armário, talheres e pratos. A criatividade dos atores merece aplausos, que encheram o palco de magia e mostraram que o teatro é a união de várias artes.

Abaixo, um trecho do conto Ela lava, ele enxuga:

— Eu hoje quero jantar fora — foi declarando, categórica, quando ele lhe abriu a porta.

— Onde você andou? — perguntou ele, dando-lhe passagem.

— Fui ao cabeleireiro. E você? Tentei te avisar o dia todo.

— Me avisar o quê?

— Que eu queria jantar fora.

— Vim mais cedo para casa. Como não te encontrei...

— Nem podia encontrar, pois eu estava no cabeleireiro.

— Eu sei, você já falou. Não te encontrei, e estava com fome...Que é que ele queria dizer? Que já havia jantado?

— Jantado, propriamente, não. Como estava com fome, fritei um ovo, e tinha um resto de arroz na geladeira... Não achei mais nada.

— Não achou nada porque eu não vim fazer o jantar.

— Estou sabendo. Foi ao cabeleireiro

— Isso mesmo. Fui e hoje eu quero jantar fora — insistiu ela: — Não venha me dizer que você não vai me levar só porque comeu um ovo.

— Calma, minha filha — fez ele, evasivo:

— Jantar onde? Você nem acabou de chegar da rua e já quer sair de novo. Que diabo de penteado é esse?O comentário final foi a gota d'água — ela, que esperava dele um elogio pelo penteado.

— Não pensa que você me leva na conversa — protestou, indignada: — Eu quero saber se vai me levar para jantar. Se não vai, diga logo, que eu vou sozinha.Um tanto temerária, aquela afirmativa, admitiu ela para si mesma: jantar sozinha como? onde? com quem? e pagar com quê?— Estou com fome... — choramingou, para ganhar tempo.

Ele fora sentar-se diante da televisão, indiferente, enquanto ela ficava por ali, lamuriando a sua fome.

— Vê se encontra aí qualquer coisa para comer, como eu fiz — ele se limitou a dizer.

Ela botou as mãos na cintura e sacudiu com raiva a cabeça, ao risco de desmanchar o penteado:— Olha bem para mim e vê se me acha com cara de arroz com ovo.

— Ovo, só tinha um — ele ria, o cínico! — E o arroz já era.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O Sorriso de uma Criança

Entre tantos assuntos que eu poderia ter escolhido para publicar meu primeiro post pra valer, como o caótico trânsito de Cuiabá ou a alegria por termos fechado mais um contrato hoje, nada poderia me deixar mais feliz do que o que aconteceu sem eu esperar!!! E que merece fotos e comentários...
Depois de alguns anos, finalmente estive perto dos meus dois sobrinhos mais novos e lindos, e pude exercer meu "cargo" de tia. O João Pedro tem dois anos e meio, e o conheci há duas semanas. É essa coisa gostosa e loira na piscina de bolinhas aí embaixo.
O Luis Felipe vai completar cinco anos daqui há dois meses, e a primeira e única vez que eu o tinha visto foi em outubro de 2005. É essa coisa gostosa e morena aí embaixo, com o pai tirando carne do dentinho. O Felipe é a cara do Sandro quando era pequeno. Impossível dizer que esse não é pai. De quebra é a cara da tia também...
Nada poderia ter me deixado mais feliz do que esse reencontro, e espero que o primeiro de muitos. Larguei tudo, larguei o escritório, as obrigações e fui encontrar meu irmão, passear no shopping com os pequenos e depois jantar e aproveitar o play do restaurante.
Ouvir os dois me chamando de "tia" valeu o dia pra mim. Dane-se o trabalho que ficou atrasado, amanhã resolvo tudo. O mais importante é desfrutar da companhia dessas pequenas pessoinhas, que alegram a vida de qualquer um. A vida nem sempre é como esperamos, e estar longe deles não foi escolha minha. Espero que agora a proximidade geográfica me permita virar cada vez mais tia.

O Nascimento de um blog

Quando se pensa em nascimento, imediatamente associa-se à imagem de uma mãe e um filho recém chegado ao mundo. Até chegar esse dia tão aguardado pelas mulheres, nove meses sem passaram. Com esse blog não foi diferente. Foi aproximadamente esse o tempo que ele levou para ficar pronto. Tive vontade de criá-lo desde as aulas do querido Rogério Mosimann na terceira fase da faculdade. No entanto, os blogs experimentais feitos em sala não me atrairam, sem futuro. Acho que matei muita aula para ficar no barzinho ou me distrai das explicações por causa do MSN.

Com a utilização cada vez maior de ferramentas da internet, o blog se tornou uma fonte de informação e uma forma de qualquer pessoa manifestar opinião. Fácil acesso, sem fiscalizações, sem obrigações. Cada um fala o que quer. Em uma época que a liberdade de expressão é tão discutida então, nem se fala...O Mosimann já alertava sobre a ascensão dos blogs e o poder da informação através deles frente à sociedade. Ensinou todas as técnicas e tudo que era novidade na época (nem faz tanto tempo, foi em 2006). Confesso que não lembro da muita coisa.

De lá para cá, pensei inúmeras vezes em criar o MEU blog. De 2008 em diante, a vontade bateu mais forte, mas eu ainda não sabia como direcionar, que assunto tratar. Ideias mil, e poucas conclusões. Deixei o tempo passar até o dia que me senti madura para ser "mãe". Acho que agora estou pronta!

Anotei lá no cantinho da agenda: criar blog. Era um dos meus objetivos até o final de 2009. E vim trabalhando a ideia na minha mente, assim como se forma a ideia de ser mãe, e aceitar o que vem pela frente, pensar de que forma será útil, pensar nas possibilidades de criação, como proceder, enfim...

Em uma noite de insônia tomei a decisão. Articulei possíveis nomes e assuntos, e agora apresento a vocês o Sem Editoria. Devido à versatilidade de gostos, seria impossível abordar apenas um assunto neste espaço. Talvez ele fique de fora da lista de blogs com aprofundamento em assunto específico, mas certamente vai passear por uma diversidade de fatos, momentos e sensações.

É possível que as indignações do que se vê no dia a dia me façam escrever sobre temas sérios, mas a proposta é que esse seja um blog leve e informativo. Não adianta...não sou jornalista de assuntos considerados sérios em detrimento de outros. Minha área é cultura, música, esportes, etc... Eles não deixam de ser sérios, mas também são leves. Enfim, espere ver de tudo por aqui. Inclusive uma agenda cultural, com dicas do que rola de melhor por aí. Quem sabe daqui um tempo com o desabrochar do blog e da autora, ele assuma uma identidade específica. Posso descobrir uma paixão maior que as outras, ou talento maior para determinada área. Isso virá com o tempo. Ou pode ser que a identidade do Sem Editoria seja essa mesma, não ter editoria.

A meta é postar pelo menos uma vez ao dia. Com o mundo em plena ebulição, assunto não vai faltar. Aceito sugestões, inclusive de como utilizar algumas ferramentas. Se elas existem, vamos explorá-las! Se alguém quiser me ensinar a modificar layout e dar uma cara exclusiva ao blog, vou adorar!

Parafraseando Pedro Bial, "espie à vontade".